Paróquia de Lamas

História da sua fundação

 

O sr. Director do «Mi­rante» pediu-me que dissesse alguma coisa sobre a freguesia de Lamas, facultando-me alguns apontamentos de Belisário Pimenta sobre a res­tauração da igreja da refe­rida paróquia depois da re­tirada dos franceses em 1811.

O benévolo leitor per­doará que não diga tudo num número. À maneira de introdução, começo hoje.

Se alguém me perguntar quando nasceu esta fregue­sia e fez dela a paróquia ou freguesia do Divino Espírito Santo de Lamas não sei res­ponder ao certo.

Porém, houve alguém que usou da sua influência e fez com que se lhe marcassem os limites, escolhesse a sede, mandasse edificar a igreja paroquial e lhe desse um pároco.

No livro «Documentos da Chancelaria de Afonso Henriques», vol. I, n.° 148, edi­tado em Coimbra em 1938, vêm descritos os limites de Podentes em 1147. Quando se refere à demarcação pró­ximo de Pousafoles ou do alto de Chão de Lamas, diz simplesmente: «está esta herença entre penela e entre miranda e entre bruscus e ladeia». Como se vê, em 1185 (data deste documento) ainda não existia a freguesia de Lamas.

Também a esplêndida re­vista «Munda» de Coimbra, ao estudar o tombo em que estão registadas as propriedades do Convento de Celas, nos princípios do século XIII, menciona várias pro­priedades na freguesia de Miranda, ignorando completamente a freguesia de La­mas, apesar de ainda hoje, existirem vários marcos aqui com a palavra «Celas» e Belisário Pimenta, ao falar na indemnização de guerra, imposta por Napoleão a Portugal em 1808, citar o feitor do Convento de Celas cá na freguesia, sobre a quantia com que havia de contribuir.

Alguma luz faz o P.e Mi­guel de Oliveira no seu li­vro “Paróquias Rurais” página 167, quando escreve que primitivamente as freguesias não eram delimi­tadas. Pelo artigo 8.° da Concordata com Dom Diniz em 1289, ficaram determina­das as condições em que de­via proceder-se a este traba­lho (delimitação das paróquias) prometendo o rei que não embargaria os Prelados, antes faria respeitar as suas decisões.

Ora, conforme Nogueira Gonçalves (Inventário Artís­tico do Distrito de Coimbra) Semide só se demarcou de Miranda e Rio de Vide, a seguir à referida Concordata com Dom Diniz, embora existisse antes de 1200. Está mesmo a ver-se que se deve ter discutido muito aquela anomalia de o Vale do Açor e Trémoa continuarem a ser de Miranda... Lembre-se que, nesse tempo, nem se­quer se imaginava a futura via férrea.

Estou pois, firmemente convencido de que Lamas começou a ter vida indepen­dente de São Salvador de Miranda, pelo menos desde o princípio do século XIV.

Embora Nogueira Gonçal­ves, diga na Obra citada que Lamas só se tornou indepen­dente no século passado, há-de ver-se adiante que já o era no tempo de D. João I.

Fui escrivão duma Junta da Paróquia (Cabril da Pampilhosa da Serra) e observei que uma das obrigações da Junta de que havia de pres­tar contas anualmente, era uma visita aos limites da freguesia e a restauração de algum marco caído.

Hoje parece que o vanda­lismo é sinal de progresso. O antigo tornou-se sinónimo de obsoleto, desusado.

Tentarei determinar, a se­guir, os limites de Lamas.

“Mirante” Ano  6. nº79, 1/1/1984